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josé da costa
em inglês, joseph beck
nome artístico jota costa
filósofo, cantor, locutor,
pintor e artista plástico
trabalha quarenta horas semanais
tem duas filhas, famosas
mas não pode dizer o nome delas
tae kwon do, muay tai
meu mestre me disse
‘quanto maior você for,
menor você deve ser’
está cansado. quer sair
deste plano espiritual
mas tem muitos amigos
e eles precisam de ajuda
[eu preciso ajudar]
me desculpe.
tenho um presente pra você
você é iluminada
você é uma pessoa muito iluminada
toma,
é de graça.
uma ametista,
muito bonita.
disse algo sobre o céu
e as andorinhas
‘porque o silêncio diz mais
que as palavras’
pegou um formulário
para preencher
qual o seu nome?
vou escrever algo.
o que você quer?
eu não quero nada.
guarde. vai realizar
o que você quiser.
obrigada.
qual o seu nome?
vanessa.
com dois esses?
é.
toma. não vou te cobrar nada.
obrigada.
tchau. agradeço a gentileza de vocês.
quarenta e nove reais
e sessenta centavos.
obrigada.
próximo.

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Passava das quatro quando finalmente conseguiu fechar os olhos. Deitara na cama horas antes, no escuro que seqüestrava dos sentidos qualquer meandro físico do quarto. O silêncio ria um vazio profundo, fazendo da saudade um brandir no oco do peito, intermitente, que incomodava como a abstinência de um vício antigo
Queria acreditar que era uma nova vida que começara após o beijo, sem saber que aqueles dias não passariam de um punhado de contas preciosas, raras num punhado mundano de areia.
E era assim que colecionava os acontecimentos. Tentando escavar no estúpido do cotidiano alguns poucos momentos de lucidez, muito dificultosamente e com pouco sucesso.
As paredes abrigavam agora um sono inquieto, ríspido como um favor que se concede apenas por obrigação. Um descanso sem sonhos que, talvez, na claridade da nova manhã, pudesse ser esquecido e dar ao despertar das pálpebras algo maior e mais esperançoso - é para isso que nos servem os dias seguintes - pensou pouco antes de adormecer, com a certeza da inquietação e a sede saciada apenas pela renovação do alvorecer.

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Essa noite sonhei que colocava a mão para fora da janela e chovia tão forte que não poderia sair pra ir atrás de você. Era um sonho em preto e branco, que nem nos sonhos de cachorro.
Quando acordei, chovia de verdade. Era uma chuva bem mais fraca do que no sonho, mas era uma chuva muito mais triste. Muito mais triste, porque, na vida acordada, entre nós há muito mais do que pingos. Era um dia cinza de ficar na cama, e fiquei.
Resolvi levantar umas cinco horas depois, que devem ter sido umas duas, mas que pareceram umas doze.
Achei que deveria tomar um banho, quente o suficiente pra me derreter encanamento abaixo. O chuveiro jorrava feroz e escaldante, então me sentei com a bunda sobre o ralo. A água se acumulava e subiu muito mais rápido do que imaginei.
Era eu, minha bunda no ralo e uns quatro dedos d’água num cubículo de azulejo. Fiquei com as mãos mergulhadas, com os vidros de xampu boiando tortos em volta das canelas. Lamentei não ter uma banheira pela vigésima vez na vida, enquanto me levantava para que o resto do banheiro não se inundasse algum momento dali.
No quarto, voltei para os pijamas que cheiravam cigarro. Eu era do tipo de menina que trocava de marca a cada relacionamento. Você, do tipo que me faria fumar um quarto da produção de tabaco do planeta, seja lá que marca fosse.
Pus por cima uma camisa velha de algodão, que tem as mangas balançantes pela falta de botões. Os punhos ficam pendurados e sempre caem na chaleira quando vou esquentar água pro café. E se molham quando escovo os dentes, se melecam de hidratante quando esfrego as pernas e se enroscam nas maçanetas quando abro a porta.
Quando acendi o primeiro cigarro do dia, quase pus fogo na borda do pano. Teria chamuscado o cabelo também, caso não tivesse acabado de sair do banho.
A chuva continuava triste e o dia continuava cinza. Deveria ter continuado na cama, eu pensei. E me ocorreu, olhando pra sua marca no meu maço de cigarro, que talvez eu precise de você tanto quanto minha camisa precisa de botões.

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Rádio-relógio imbecil, que mais parecia uma bomba-relógio, com seus números vermelhos enormes, que gritavam a plenos pulmões: FALTAM SÓ CINCO MINUTOS! APENAS CINCO! E AGORA QUATRO!
Se pudesse entender realmente alguma coisa, escolheria as juras. Porque jurar é estúpido. Jurar é comprometimento algum, porque é unilateral. Se você diz que é, então é, porque disse. Já as promessas, não. As promessas implicam um tipo pouco menos tacanha de acordo-comum, entre duas partes, e existem enquanto ambos os lados ainda não se esquecerem de cumprir ou cobrar tal arranjo combinado.
Relógio de pulso, tão tonto quanto, de ponteiros dourados que dançavam uma valsa torta para um lado só, girando e girando e girando, deixando tonta a tonta que olhava sem querer olhar para eles.
Se pudesse me esquecer realmente de alguma coisa, escolheria os aviões, porque voar me dá nervoso. São milhares de quilômetros, nuvens a dentro, num barulho que martela os ossos do crânio, num sobe-e-desce que embrulha as tripas, com privadas sem água e posições incômodas para dormir. De dentro ou de fora, aviões enervam, porque implicam distâncias, que telefone algum resolve.
Mais besta ainda era o dia, que cegava a vista com um bafo quente, para, de repente, sumir no quase-breu mais desesperador que esse mundo já viu, fazendo pupilas enlouquecerem, num fecha-e-abre intermitente, de um segundo para o outro.
Tranqueiras obsessivo-compulsivas. Ao longo de um mês e pouco, juntei um sem-número de pequenos objetos e penduricalhos, como peças coloridas de tangran que não se juntam e formam figura alguma. Embalagens, maços de cigarro, elástico de cabelo, moeda estrangeira, garrafa de suco (e de água), papéis rabiscados e um chiclete mascado. O último é mentira, mas se fosse verdade, não seria nem um pouco menos absurdo. Poderia montar um altar de um adorador só, mas se fosse verdade, não seria nem um pouco engraçado. Seria presa. Ou internada.
Despertador é outra coisa que é frouxa, porque sempre avisa o que, se realmente quiséssemos, nos lembraríamos sozinhos. O negócio apita, e assusta, e, ainda por cima, não nos deixa esquecer de acordar, ou ir para algum lugar, ou interromper qualquer coisa que, de bom grado, não interromperíamos gratuitamente.
Odiar é um negócio que dá trabalho, porque franzir a testa gasta muito mais músculos do que sorrir, mas, se eu disse o que disse, certamente não foi porque queria evitar rugas nas testas. Felicidade dá trabalho tanto quanto, mas odiaria mesmo é perder a oportunidade de te mostrar os dentes, numa boca em meia-lua para cima, tentando mostrar naturalmente o quanto, com você, nada no mundo faz sentido, enquanto todo o resto, dentro da minha cabeça, passa a fazer. Pois é.

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O problema de contar mentiras é que, quando você fala a verdade, as pessoas acreditam do mesmo jeito.
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Cada momento é algo que faz sua vida nunca mais ser a mesma.
Nos despedaçamos em pequenos pedacinhos, jogados contra a parede, apenas para nos consertamos e depois nos partirmos de novo e depois nos consertarmos mais uma vez.
Somos únicos, enormes, com uma imensidão tão particular dentro de nosso peito que a idéia de amor é engraçada e quase contraditória. Somos tão diferentes e gigantescos que nos aproximarmos tanto é tão provável quanto vencer um abismo com um monociclo.
Saltamos, caímos, e morremos e vivemos de novo, porque cada novo segundo é um novo segundo e nos tornamos outros. Saltaremos novamente com a noção de que a outra queda foi apenas um leve suspiro, pouco mais que uma memória borrada.
Que a concepção torpe e inapreensível de seja lá o que for deus nos acalente, pois nossos corações frágeis são muito mais resistentes do que gostaríamos que fossem e precisamos de algo muito maior que nossa própria imensidão para não desistirmos do que quer que nos mantém aqui. Estamos todos aqui, neste exato momento.
Estou cansada, me sinto idiota, mas percebi que posso saltar de novo.
Descobri porquê nunca quero partir.

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Dora era um navio que boiava. Dora não navegava, apenas boiava ali. Vinte toneladas de aço inerte.
Renata era um carro sem pedais. Todos que entravam em Renata olhavam para os próprios pés, deorientados. Apenas ficavam lá. Inertertes. E depois saíam.
Marta era uma dentadura sem gengivas. Todos os velhos banguelas que punham Marta na boca desistiam de sorrir. O primeiro - e único - que tentou, sorriu um sorriso de caveira, cujos dentes enflieirados caíram. O primeiro e único velho deixou de sorrir sem querer. Seus lábios arreganhados, Inertes. Cuspiu.
Já passava das quatro quando Magnólia decidiu fechar o livro e os olhos. Sonharia com tudo o que jamais viveu, para então esquecer-se de si mesma duas horas depois, na hora de despertar.
Tivera o primeiro filho aos vinte e um e hoje, aos cinquenta, coleciona dezenas de formas diferentes de suicídio na memória. Um para cada aniversário.
Kiki adorava homens barbados
Cabelo chanel, all stars e uma bunda
maravilhosa
Ela poderia dominar o mundo
se quisesse
Mas prefere usar meias coloridas
ao invés.

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essa merda toda de eventos-que-mudam-sua-vida completamente e você fica lá falando e falando e falando e falando um monte de palavras que só fazem sentido na sua cabeça e você fala e fala e fala e as coisas nunca saem da sua boca do jeito que você quer e tudo o que você realmente queria é que as coisas fizessem sentido antes mesmo de virarem palavras porque tudo isso e essa merda toda não passa de um monte de coisas que te aconteceram de um jeito tão rápido e tão inesperado que de repente você nem sabe de onde vieram nem como aconteceram mas coisas simplesmente acontecem e você de repente se sente feliz numa felicidade extasiante como se o mundo fosse o lugar mais lindo que pode existir e de repente o chão se abre num buraco e o céu continua lindo com umas nuvens enormes num fundo azul mais enorme e que parece tão finito e você sente que nada mais precisa de sentido algum só o sentimento de ficar olhando aquele azul todo com uma cabeça de tina turner enorme gritando com seu cabelão e lançando raios pra lá e pra cá como se tudo fosse acabar e explodir numa imensidão de sentimentos maravilhosos e simples e complexos ao mesmo tempo e você só quer esquecer de tudo e lembrar de tudo ao mesmo tempo e sentir essa merda toda de mundo bonito e de buraco no chão e de nuvens e céu azul porque é só isso que importa e as pessoas surgem do nada e mudam tudo do nada e outras pessoas vão embora e outras pessoas ficam e são tantas pessoas no mundo todo e isso é tão foda e bonito e bom e difícil e parece que sua cabeça não vai agüentar de tanto no mesmo segundo e você só quer que o que quer que esteja borbulhando no seu peito saia de você como se você vomitasse e você quer ler todos os livros que nunca leu e ver os filmes que nunca viu e escutar música até suas orelhas cozinharem e seu cérebro doa e isso tudo é foda e parece que não faz sentido mas faz você só não sabe como nem porque mas você não precisa saber de tudo agora você só não sabe disso ainda e são tantas as coisas que eu queria dizer que parece que as palavras são muito poucas e muito idiotas mas é tudo verdade eu juro que é tudo verdade juro que eu queria dizer muito mais e sentir muito mais mesmo que tudo esteja meio esquisito e rápido e dolorido e bom e que esse vai-e-vem de tudo-ao-mesmo-tempo-agora é um barato e você vai ficar pensando que eu sou maluca porque o você antes se referia a mim e agora é você mesmo e eu não sou mais o você e eu não sei mais como organizar tudo isso que está saindo da minha cabeça e eu realmente REALMENTE queria meus dvds e meu livro de volta e quem sabe um telefonemazinho e eu queria também saber o que diabos se passa nesse mundo que cada vez mais me deixa sem saber o que fazer mas mesmo assim eu estou gostanto muito de cada minuto e se eu morresse agora ia ser uma bosta e eu nem sei porque pensei nisso e você que agora é você mesmo não tem nada a ver com isso não é mesmo mas tudo bem porque se você já leu até aqui talvez você tenha alguma coisa a ver com isso e eu queria também saber um bocado de coisas que eu ainda não sei e quem sabe fazer alguma coisa de útil pra poder deixar caso eu de repente morra mesmo não que isso vá lá importar muito se eu morresse mesmo de repente mas aí é algo que você só pensa enquanto ainda está vivo e eu ainda estou viva então eu penso nisso mas é melhor ocupar a cabeça com outras coisas mais fáceis e menos filosóficas porque isso aí não importa muito e agora já é quase de manhã e eu ainda não dormir e eu preciso dormir alguma hora e você também aí no outro dia que na verdade já é hoje tudo isso que eu escrevi não vai mais ser tão importante e é engraçado como num segundo as coisas importam muito como se sua existência inteira dependesse delas e depois elas nem chegam a cruzar seu pensamento só talvez como algo que você se lembre muito remotamente e isso é foda e tragicômico só no momento em que você se dá conta disso e depois nem é mais e tem tanto mais que se poderia dizer num bocado de palavras - 788 segundo o negocinho de texto aqui em baixo do botão de postar porra agora já são 804 - mas enfim que mundo esquisito esse em que até as palavras tem números e números são outra coisa muito esquisita porque eles nunca permanecem do mesmo jeito porque sempre que alguma coisa acontece - e alguma coisa sempre acontece - eles mudam e mudam bem rápido que nem as coisas que importam pra você e deixam de importar e agora o você virou eu de novo e eu que agora já sou eu e você de novo estou ficando meio confusa com isso mas tudo bem porque daqui a pouco meus dedos vão cansar de martelar essa merda toda e eu vou dormir e aí quem sabe eu vou me arranjar com os pronomes de novo e as coisas digitadas não vão mais ser tão importantes como elas estão sendo neste exato instante e eu estou começando a achar que tudo isso está muito grande e acho que eu vou dormir agora tchau.

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Era enorme.
Era cinza.
Era algo que talvez se parecesse com uma pedra.
Uma pedra enorme.
Quando Maria acordou já estava escurecendo de novo, e Aquilo estava lá.
Era algo enorme, cinza, enrugado e cheio de fendas.
Se aquilo fosse uma pedra, seria tão grande quanto um pequeno planeta. Um pequeno planeta com seu pequeno nariz empinado, petulante e orgulhoso por não ser apenas um meteorito qualquer. Embora pequeno, era enorme.
Maria esfregou os olhos. Não comia, só bebia chá e fumava cigarro sem filtro. Maria tinha olheiras fundas e do fundo das cavidades roxas que perfuravam sua cara, duas bolotas amareladas, que um dia, talvez, fossem seus olhos, brotavam como dois furúnculos.
Maria estava estarrecida com o tamanho daquele negócio.
Tinha sonhado coisas terríveis e familiares, do jeito que só os sonhos são. Sonhou também com uma casa velha e com pessoas peladas. Mas aquilo desdobrava todo e qualquer possível devaneio onírico de quase todo e mais que impossível devaneio de sua cabeça fatigada.
“Puta que pariu”. Foi só o que ela conseguiu dizer.
Estava sentada na cama, grudando o lençol até a altura do nariz. E embora não mais que um murmúrio coberto por um pedaço de pano, as palavras que disse soavam claras como um holofote.
“Puta que pariu, que porra é essa”.
Maria encarava o pequeno planeta cinzento com seus olhos de furúnculo, e mesmo praguejando todos as palavras sujas que conhecia, não conseguia descrever a sensação de acordar e dar de cara com algo que jamais sairia dos sonhos do mais ultrasubinconsciente fumador de ópio do século passado.
Aquilo estava realmente lá.
Tentou piscar. Piscou.
E lá estavam dois.
E então Maria não proferiu palavra alguma.
Dois.
Duas coisas monstruosas, esfarelentas e craqueladas. Semelhantes à radiografias de duas grandes e gordas células cancerosas. Eram dois enormes tumores que riam da cara de Maria, pelo simples prazer de a aterrorizarem fora de seu corpo, tanto quanto se estivesses em algum de seus tecidos.
Maria encarava suas anomalias celulares extracorpóreas, estática. Agarrava o lençol com tanta força que a metade de cima de sua cabeça já não recebia mais sangue. Começava a ficar levemente tonta e dormente. Não se atreveria a mexer um fio de seu cabelo desgrenhado de sono. Mas mexeu quando piscou novamente.
E, então, eram três. Três.
E, então, o pequeno e fibroso coração de Maria estalou como uma porta de madeira esburacada por cupins selvagens africanos. Artérias, veias, átrios, ventrículos. Imaginou os slides das aulas de biologia de colégio. Via seu próprio coração projetado numa tela branca, enquanto comia uma barrinha de cereais e rabiscava aquelas três monstruosidades cor-de-carvão em seu caderno. E a projeção do órgão cardíaco era deliberadamente invadida por toda a sorte de larvas, minhocas, tênias e solitárias gosmentas.
Maria não mais respirava.
O resto de seus pulmões pretos entraria em colapso, caso o peito dela não cansasse de resistir à trágica vida que levava.
Duas bexigas de borracha frouxa carcumida, cheias de capilares que envolviam milhões e milhões de alvéolos redondos acinzentados. Como aquelas três coisas euclidianamente espremidas num quarto de 2 metros e meio por 3.
Maria ficou daquele jeito por mais algumas horas.
Quando os dedos estavam roxos da quase gangrena, soltou o lençol do rosto. Estava marcada com uma risca vermelha que se estendia longitudinalmente de seu buço a suas orelhas. E o gigantesco trio pedregulhoso se refletia em suas diminutas pupilas de formiga.
Maria girou o torço sobre o colchão e seus pés tocaram o carpete encardido.
Levantou quieta e psicanalisticamente amortecida após as ininterruptas horas de horror. Engraçado como a mente cria pequenos truques para nos proteger.
Maria deu alguns passinhos em direção aos monstruosos planetóides orgulhosos e os abraçou.
Abraçou um abraço forte. Quase deslocou ambos os ombros tentanto abarcar aquelas três coisas de uma vez só.
Maria abraçou as misteriosas e enormes células cancerentas como se elas fossem sua própria mãe, que a abandonara apenas cinco anos após dar a luz.
Maria abraçou até seus braços doerem.
Maria abraçou aqueles grotescos e cinzentos desapontamentos de sua vida, como se seus braços não mais estivessem colados nas mangas da camisola.
