concrete&honey
Sunday November 27th 2005, 2:15 am
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É impossível medir pessoas. É impossível pôr números sobre ações e reações. É impossível querer classificar almas num tipo pedante de hierarquia.
Fugir dos clichês que são cuspidos em todos os estúpidos segundos de sua própria vida em “sociedade”. Definitivamente, somos burros. Estabelecemos a santa veadagem do ordem-e-progresso em nossos valores pessoais. Quer dizer, você é bom, você é mau. O porquê, exatamente, ninguém consegue dizer.
Você é bom quando ajuda uma velhinha a atravessar a rua, você é mau quando mata alguém. Você é bom quando impõe regras, quando as segue e quando culpa os que não o fazem. Você é mau quando quebra as regras, você é mau quando nega o que os outros escolheram por você.
Porque o importante é ter dinheiro, porque o dinheiro te dá educação e porque ser educado é bom. E porque é mau negar seus próprios ímpetos e discernimentos morais, quando estes contradizem o dinheiro. Porque dinheiro é regra. E só tem dinheiro quem, de um jeito ou de outro, já fez algo que um dia foi contradição.
Não existe bondade pura. Porque dizer que algo existe, é criar uma verdade absoluta. Mas não existe verdade absoluta. E dizer que, absolutamente, não existe verdade, é uma contradição.
Te medem pela tua aparêcia, pelos teus atos, pelo que pensa. E você mesmo se mede. Porque não se pode analisar a existência humana em terceira pessoa.
Não importa o quanto você é bom, nem o quanto é mau, porque não se pode pôr números sobre ações e reações.
E te medem pelo número de acerto numa prova, pelo número de sua capacidade intelectual. Mas nem todos os intelectuais têm dinheiro. E nem todo o dinheiro do mundo pode medir o quanto você é bom, ou mau, ou educado, ou contraditório.
E te medem pelo quanto já fez pelos outros. E te crucificam pelo quanto já fez por si mesmo. Porque não importa quão longe teus pensamentos se ultrapassam, nem o quão intensa são tuas vontades, nem o quão eloqüentes são tuas loucuras, nem o quão frágeis são teus medos e paradoxos.
Números são absolutos. E números, paradoxalmente, ratificam e contradizem a verdade.
Ter o desejo de busca, ter a necessidade por caminhos, ter um par de lábios beijar uns e cuspir. Não importa. Nada que não seja medido em números é reconhecido. Nada que não é medido em números é reconhecido. Não se reconhece nada além de números.
Ordem e progresso. Hierarquia.
A idéia da futilidade, dos pensamentos frívolos, demonizada por um ceticismo politicamente correto. Ou melhor, moralmente correto. Porque demonizar os atos ruins é ser bom. E ser bom é destruir, ou punir, ou excluir, o que é mau. Porque ser tolerante não é bom. Porque a tolerância só é sinônimo de benevolência para as maldades inofencivas.
Mas a bondade pura não se deixa ruir. Mas a pureza absoluta não existe.
E de que importam as fragilidades, e os medos, e as irrelevâncias quando se têm as verdadeiras maldades? Que meçam em números, sexo, cor e raça toda a estupidez e que todos os seus valores sejam superados pela bondade. Porque a bondade é forte, impetuosa e onipotente.
Mas a bondade pura não existe. E o que não é puro, pode ser corrompido. E, então, gloriosamente, contemplemos a existência da bondade corrompida, travestida e estripada. Colemos uma placa de exímio valor num monumento em sua homenagem com as palavras: “Ordem e Progresso”, em letras garrafais. Algo que seja… Digamos, uma estátua. Uma estátua de gênero feminino, com os olhos vendados e uma balança em uma das mãos. E com, de preferência, um dos pés sobre uma figura que se assemelhe a um demônio. Este, sem placa, com a única palavra “Mau”, marcada na testa.
E seria impossível não contemplar o tal monumento. Seria impossível contermos o olhar e o desejo de tornar aquele o símbolo de toda a contraditória existência humana. Da vida em sociedade. Do que seria absolutamente… Perfeito.
Porque é uma imagem idealizada de todos os números cuspidos em nossas caras. Porque é uma imagem do que somos condicionados a aceitar. Porque é uma imagem do que condicionamos uns aos outros a aceitar. E porque é uma imagem do que queremos aceitar.
Se existem imagens e palavras, para quê números?



Vida de Xícara
Monday November 14th 2005, 6:34 pm
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Primeiras letras, primeiras palavras, primeiras sentenças. Primeiro post.
E você se esforça pra não deixar a metalingüística deixar o texto babaca e se esforça mais ainda pra não cometer os paradoxalmente inevitáveis erros de paralelismo e concordância. Mas, veja bem que o esforço é válido, afinal ele esta sendo redigido numa calma tarde de segunda-feira que, por excelência, já é entediante. A falta de assunto vence, você deixa de lado os mirabolantes planos de temas como o sentido da vida ou a Democracia vs. o Anarquismo Ontológico e se permite digitar um sem-sentido verborrágico e vazio, só pelo tesão de digitar algo com mais de duas linhas.
Você já comeu, lavou a louça, arrumou o quarto, comeu de novo, tomou banho e já enjoou da porcaria repetitiva do tal de orkut. Aí, você faz café, forte o bastante pra foder seu fígado (ha-ha), e fuma um cigarro, esperando que este não exploda sua garganta ou não te deixe com aquele tipo bizarro de tosse claustrofóbica. E este, talvez, seja o ponto alto do seu dia, quando a casa vazia não te dá motivo algum para odiá-la, quando já está satisfeito com os passeios dos dias anteriores, com as fotografias que tirou e simplesmente não pode mais comer coisas de chocolate sem ficar com as mãos trêmulas. Você contempla a droga da xícara como se todo o motivo da existência do seu dia estivesse contidos ali e percebe que o tédio pode ser bastante reconfortante.
Sarcasmo. Ai, sarcasmo.
O ócio não pode ser simplesmente tão satistisfatório se você não tiver certa obsessão por ironia ou por uma auto-crítica tão devastadora que se assemelhe a autofagia ou até sadomasoquismo. Os pensamentos e as vontades são suprimidos por uma indiferença brutal e uma leve censura, já que este, primeiro post, deveria ser muito mais neutro e muito menos temporal, mas… Oras, por que não?
A xícara já se esvaziou no meio desses vinte e poucos minutos e parece que o clímax do seu dia chegou ao fim. E, depois do clímax, volta o meio quieto, onde o tédio não é tão mais confortável ou intrigante. Voltam os pensamentos, as vontades, a estupidez e a falta de chocolate; a verborragia coagula. A não ser, é claro, que torne a encher a xícara.