::ESPECIAL DE NATAL:: (uiui)
Monday December 19th 2005, 6:47 pm
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Virgínia, 9, em seu apartamento duplex, 18° andar, na Vila Mariana. Dia 24 de Dezembro de 2004, às 23:52. Com sérias crises de insônia desde os 5 anos e meio, levantou-se em seu pijama de nuvens para a dose noturna de Lexotan. Na metade do caminho de volta para o quarto, viu, atrás da árvore de natal, um velhinho com vestimentas de veludo vermelho e um enorme saco de pano jogado por cima de um dos ombros.

- AHHHH!!! – exclamou horrorizada.
- Ho ho ho, Feliz Natal! – respondeu o senhor, desconcertado.
- Mas que diabos…???
- Ho ho, sim, sou eu mesmo, minha criança! Papai Noel!
- Er… Não era pra eu te ver, né? – indagou.
- É, a senhorita me pegou desprevenido! Ho ho ho.
- Ahm – resmungou pensativa, olhando para suas pantufas de coelhinho -, definitivamente preciso pedir pro doutor diminuir a dose do Lex. Ou será que eu já tinha tomado antes de ir pra cama…?
- Ho ho ho, não é sua imaginação, menina. Soy yo, carne, osso e muitos presentes!
- Ah hã. – levantando um dos sobrolhos.
- Hum. Er… Vim trazer seu presente! Ho ho.
- É o pônei? Eu queria um pônei, mas mamãe falou que não teria espaço pra ele aqui no apê e que se eu comprasse um com o dinheiro da merenda ela ia mandar o bicho pro matadouro e servir na ceia. Melhor que não seja ele, né.
- Ho ho ho! Mas que criaturazinha fantástica! – Riu arqueado para trás, com ambas as mãos sobre a barriga.
- Mas, enfim… Qual é a da risada, Noel? Você por um acaso não tomou uma daquelas balinhas que estavam em cima da mesa, né? Aquelas eram da mamãe e ela ri assim quando toma aquilo.
- Ho h… Er… – engasgou – Não, não.
- Bem. Já que o papo tá engrenando; meu nome é Virgínia, mas me chamam de Vivis. E o seu?
- Nicolau. São Nicolau.
- Nicolau, Noel. Noel, Nicolau… Não saquei o apelido.
- Ho ho ho! Vejamos… É que antes de me tornar o Entregador Divino de Presentes, eu queria ser músico! Era fã do Noel Rosa, desde muito jovem, aí roubei o apelido pra mim. MPB era minha vida antes da Coca-Cola comprar o copyright das roupas vermelhas e tal… Roupas horrorosas, aliás. Aqui no Brasil é verão em Dezembro, sabe? O veludo pinica e me dá um problema ter-rí-vel de sudorese excessiva.
- Claro, claro. Obrigada por compartilhar detalhes tão… Íntimos.
- Não seja por isso! Ho ho ho.
- E o “Papai”, vem da onde? Essa coisa de duendezinhos ajudantes aqui, criancinhas sentadas no colo ali… Soa meio pedófilo, saca? Sem ofensas…
-…
- Tá, tá, não precisa responder essa. Mas… Foi coisa da sua senhora? Tipo a “Mamãe” Noel te chamando pras relações de marido-e-mulher? “Ui, ui, Papai, traz essa pancinha fofa pra cá”, ha ha!
-…
- Foi mal. Parei.
- Ho ho ho, mas que criança fascinante… – Sorriu amarelamente.
- Anyway, Noel, o que você me trouxe de presente?
- Oh, minha criança, é uma surpresa! Você foi uma boa menina neste ano que se passou?
- Ha ha, pode se dizer que sim… Até porque o doutor falou que minha melhora foi exemplar… Deixei de tomar muita coisa, sabe? Bem, só continua aí o Lex, mas é só pra me fazer dormir melhor. Muito estressante essa vida de pré-adolescente contemporânea. Ha ha.
- Er… Ho ho… – agora era ele quem olhava para as botinas pretas.
- Ih, nem esquenta, Noel. Fui muito boazinha, sim.
- Ho ho ho! Você deveria estar dormindo agora, para abrir os presentes apenas amanhã de manhãzinha! – todo bonachão.
- Ahm, sim, sim. O Lex já tá começando a funcionar… Daqui a pouquinho eu vou dormir tão profundamente que nada no mundo me acordará. Nem pó de guaraná na veia, nem injeção de adrenalina na coração. Acredite.
-… Ho.
- Ha ha ha, pára de enrolar, Lalau! – e deu-lhe um tabefe no ombro.
- Noel, por favor.
- Nicolau, Noel, Papai… – Virgínia suspirou, indiferente.
- Você não está sendo boazinha neste instante, minha criança… – disse condecente.
- Ah, oras. Essa coisa toda de ser “boazinha” é muito relativa, saca? Você passa o ano inteiro sendo maior legal com os seus coleguinhas toscos que ficam arrastando aquela lancheirinha bizarra do Pokémon pra cima e pra baixo, não puxa o rabo do seu cachorrinho, devolve o troco da padaria pra mamãe, é legal com a nova namorada baranga do papai, toma todos seus remedinhos… Haja paciência!
-…
- É, meu! Tcho continuar…
- Claro! Ho ho. – nunca estivera tão envergonhado em toda sua vida santa.
- Pô, “boazinha” é o seu nariz, sabe? Toda essa cultura subversiva da bondade, e blablablá, é só mais um modo de estimular as criancinhas a serem ignóbeis consumidores patológicos, cada vez mais jovens! É de um hedonismo redundantemente egocêntrico, completamente exacerbado, supervalorizado pelos monopólios capitalistas. Bondade não existe mais, é tudo conspiração do governo! Lojas de brinquedos, de roupas, de tudo! Faz tudo parte de uma grande piada pós-moderna de uma ironia absurda, que aponta o dedo indicador nas nossas caras e faz com que a acumulação de renda mundial consolide não apenas a desigualdade econômica, mas a social e a… A espiritual, poxa. A busca incessante pelas parafernalhas carérrimas que nos empurram goela abaixo é uma espiral decrescente que vai afundar nossos verdadeiros âmagos e desejos por felicidade na privada. Ufa. – retomou a postura, resfolegante.
- F-Foi… Surpreendente! Ho ho. – embasbacado – Escuta, você tem mesmo 9 anos?
- Ha ha, qué isso, Noel… Foi só uma parte dos meus estudos autodidatas sobre o comportamento social humano desde a Idade Moderna.
- Ah hã. Quer dizer, Ho ho!
-…
-…
- E… O presente? – Virgínia questionou.
- Olha, eu preciso entregar presentes pras outras crianças mais… Comportadas. Pega aqui esse CD especial de Natal da Tori Amos e fica tudo ok?
- É. Bacana. Valeu, Noel.
- Ho ho ho! De nada, de nada.

E o Bom Velhinho pulou pela janela do duplex.



Três Ensaios
Thursday December 08th 2005, 2:38 pm
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Parte I – Nicolete
Torno a dizer que as pessoas deixaram de me surpreender - disse Nicolete - Sinto a existência deles agarrada como mãos em meu pescoço, sufoca-me; torna impossível evitá-los. E quando, resfolegante, volto a erguer-me - a gola rota de meu vestido evidencia minha luta - encontro nada além do vazio em seus olhos, a indiferença que antes, camuflada pelo ódio, agora queima em chamas gélidas e uniformes. Sua frieza é assustadora, mantém um ciclo ritmado de indiscrições rudes e o moralismo tão característico de sua natureza. Como a sombra de suas almas, seu interior é oco, tão extenso em um vago corredor que poderia ecoar eternamente seu uníssono, petulante e impiedoso, ouvido apenas por meus breves relances. Os homens são maquinário complexo, de metal bruto e engrenagens mal besuntadas de graxa, onde suas gigantescas correias fazem pulsar e ranger um mecanismo interno menor, cuja função, esquecida - ou talvez jamais vigorada - é libertar a máquina da condição de máquina, fazer do ferro bruto carne e das engrenagens, sangue. Contudo, a ferrugem acumulada durante séculos e séculos constipa os nervos e artérias, gangrena suas partes - irá amputá-las, pouco a pouco -, fazendo da magistral estrutura nada além de montes de metal, forjado à indiferença e à incansável mesmice seqüencial de movimentos pré-determinados. Estúpidos eles, estúpida eu mesma. Talvez tenha certeza de que não posso confiar neles. Não, nem devo.

Parte II – Augusto
A derrota jamais me foi um empecilho - disse Augusto -, afinal, já me acostumei com ela. A constante falta de inspiração, os mesmo sons - as vozes ainda sussurram em meus ouvidos - tudo, ou melhor, nada jamais sequer tocou em meus princípios, minhas intenções, meus desejos. Comovo-me facilmente demais. A dor da lembrança de seus passos, descendo as escadas, seu cheiro em minhas roupas, seus livros, as velhas fotografias escondidas na gaveta do criado-mudo. As noites torturantes e intermináveis debruçado na pequena mesa da sala, sob um amontoado de papéis amarelados e uma névoa densa de nicotina. guardo cada instante da forma mais dolorida possível, assim acostumo-me com a partida, faço de minhas ansiedades e inquietudes minhas grandes companheiras e, finalmente, caio no sono ainda na mesa, para que, na manhã seguinte, descubra que as dores permanecem. As vozes, as intenções, as fotografias, a inquietude - seus vestígios, ainda impregnados em minhas roupas - nada mudou. Isso jamais me foi um empecilho.

Parte III – Antonieta
Vocês respiram rápido demais - disse Antonieta - bufam como animais, resfolegam, engasgam, tudo sem um único suspiro. Clamam sua passagem rápida demais, seus compromissos sociais, suas reuniões de família. Seu tempo, insuficiente; o meu, lento. A amabilidade e a sutileza cítrica dos ponteiros do grande relógio - seus estalos oscilam realmente? Por que o ouço dessa forma? -, cada volta completa assemelha-se a um cumprimento saudosista, ao longe, calmo, paciente, ainda assim, amargo. O gosto no fundo da língua, os suspiros do grande mecanismo de madeira, que controla nossas existências tão gentilmente, mantém nossas vidas submersas num ciclo constante e numerado. Uma imposição, nosso limite - o encontro com a vulnerabilidade! - nossas asas arrogantes e pretensiosas, aparadas por lâminas cegas, dando fim ao vôo mais alto, à concepção mais intensa. Tornamo-nos impotentes, incrédulos e mesquinhos. Perdemos a doçura de nossos sorrisos, o frescor de nossas palavras, o encontro com nossas consciências. Esquecemos dos cheiros e dos gostos, do toque, da intuição. Vagamos trôpegos, cambaleantes sobre nossas próprias pernas, buscando sempre o mais distante, o maior do que podemos, o incompreensível, enquanto toda a energia e vitalidade do simples são desperdiçadas. Jogamos fora nossa própria essência ao corrermos atrás de sombras disfarçadas. Corremos para, então, nos perdermos de nós mesmo. Mas já não há mais tempo. Foi dada mais uma volta.

*postado no Don’t Look UP – 01 Jun 2005