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Virgínia, 9, em seu apartamento duplex, 18° andar, na Vila Mariana. Dia 24 de Dezembro de 2004, às 23:52. Com sérias crises de insônia desde os 5 anos e meio, levantou-se em seu pijama de nuvens para a dose noturna de Lexotan. Na metade do caminho de volta para o quarto, viu, atrás da árvore de natal, um velhinho com vestimentas de veludo vermelho e um enorme saco de pano jogado por cima de um dos ombros.
- AHHHH!!! – exclamou horrorizada.
- Ho ho ho, Feliz Natal! – respondeu o senhor, desconcertado.
- Mas que diabos…???
- Ho ho, sim, sou eu mesmo, minha criança! Papai Noel!
- Er… Não era pra eu te ver, né? – indagou.
- É, a senhorita me pegou desprevenido! Ho ho ho.
- Ahm – resmungou pensativa, olhando para suas pantufas de coelhinho -, definitivamente preciso pedir pro doutor diminuir a dose do Lex. Ou será que eu já tinha tomado antes de ir pra cama…?
- Ho ho ho, não é sua imaginação, menina. Soy yo, carne, osso e muitos presentes!
- Ah hã. – levantando um dos sobrolhos.
- Hum. Er… Vim trazer seu presente! Ho ho.
- É o pônei? Eu queria um pônei, mas mamãe falou que não teria espaço pra ele aqui no apê e que se eu comprasse um com o dinheiro da merenda ela ia mandar o bicho pro matadouro e servir na ceia. Melhor que não seja ele, né.
- Ho ho ho! Mas que criaturazinha fantástica! – Riu arqueado para trás, com ambas as mãos sobre a barriga.
- Mas, enfim… Qual é a da risada, Noel? Você por um acaso não tomou uma daquelas balinhas que estavam em cima da mesa, né? Aquelas eram da mamãe e ela ri assim quando toma aquilo.
- Ho h… Er… – engasgou – Não, não.
- Bem. Já que o papo tá engrenando; meu nome é Virgínia, mas me chamam de Vivis. E o seu?
- Nicolau. São Nicolau.
- Nicolau, Noel. Noel, Nicolau… Não saquei o apelido.
- Ho ho ho! Vejamos… É que antes de me tornar o Entregador Divino de Presentes, eu queria ser músico! Era fã do Noel Rosa, desde muito jovem, aí roubei o apelido pra mim. MPB era minha vida antes da Coca-Cola comprar o copyright das roupas vermelhas e tal… Roupas horrorosas, aliás. Aqui no Brasil é verão em Dezembro, sabe? O veludo pinica e me dá um problema ter-rí-vel de sudorese excessiva.
- Claro, claro. Obrigada por compartilhar detalhes tão… Íntimos.
- Não seja por isso! Ho ho ho.
- E o “Papai”, vem da onde? Essa coisa de duendezinhos ajudantes aqui, criancinhas sentadas no colo ali… Soa meio pedófilo, saca? Sem ofensas…
-…
- Tá, tá, não precisa responder essa. Mas… Foi coisa da sua senhora? Tipo a “Mamãe” Noel te chamando pras relações de marido-e-mulher? “Ui, ui, Papai, traz essa pancinha fofa pra cá”, ha ha!
-…
- Foi mal. Parei.
- Ho ho ho, mas que criança fascinante… – Sorriu amarelamente.
- Anyway, Noel, o que você me trouxe de presente?
- Oh, minha criança, é uma surpresa! Você foi uma boa menina neste ano que se passou?
- Ha ha, pode se dizer que sim… Até porque o doutor falou que minha melhora foi exemplar… Deixei de tomar muita coisa, sabe? Bem, só continua aí o Lex, mas é só pra me fazer dormir melhor. Muito estressante essa vida de pré-adolescente contemporânea. Ha ha.
- Er… Ho ho… – agora era ele quem olhava para as botinas pretas.
- Ih, nem esquenta, Noel. Fui muito boazinha, sim.
- Ho ho ho! Você deveria estar dormindo agora, para abrir os presentes apenas amanhã de manhãzinha! – todo bonachão.
- Ahm, sim, sim. O Lex já tá começando a funcionar… Daqui a pouquinho eu vou dormir tão profundamente que nada no mundo me acordará. Nem pó de guaraná na veia, nem injeção de adrenalina na coração. Acredite.
-… Ho.
- Ha ha ha, pára de enrolar, Lalau! – e deu-lhe um tabefe no ombro.
- Noel, por favor.
- Nicolau, Noel, Papai… – Virgínia suspirou, indiferente.
- Você não está sendo boazinha neste instante, minha criança… – disse condecente.
- Ah, oras. Essa coisa toda de ser “boazinha” é muito relativa, saca? Você passa o ano inteiro sendo maior legal com os seus coleguinhas toscos que ficam arrastando aquela lancheirinha bizarra do Pokémon pra cima e pra baixo, não puxa o rabo do seu cachorrinho, devolve o troco da padaria pra mamãe, é legal com a nova namorada baranga do papai, toma todos seus remedinhos… Haja paciência!
-…
- É, meu! Tcho continuar…
- Claro! Ho ho. – nunca estivera tão envergonhado em toda sua vida santa.
- Pô, “boazinha” é o seu nariz, sabe? Toda essa cultura subversiva da bondade, e blablablá, é só mais um modo de estimular as criancinhas a serem ignóbeis consumidores patológicos, cada vez mais jovens! É de um hedonismo redundantemente egocêntrico, completamente exacerbado, supervalorizado pelos monopólios capitalistas. Bondade não existe mais, é tudo conspiração do governo! Lojas de brinquedos, de roupas, de tudo! Faz tudo parte de uma grande piada pós-moderna de uma ironia absurda, que aponta o dedo indicador nas nossas caras e faz com que a acumulação de renda mundial consolide não apenas a desigualdade econômica, mas a social e a… A espiritual, poxa. A busca incessante pelas parafernalhas carérrimas que nos empurram goela abaixo é uma espiral decrescente que vai afundar nossos verdadeiros âmagos e desejos por felicidade na privada. Ufa. – retomou a postura, resfolegante.
- F-Foi… Surpreendente! Ho ho. – embasbacado – Escuta, você tem mesmo 9 anos?
- Ha ha, qué isso, Noel… Foi só uma parte dos meus estudos autodidatas sobre o comportamento social humano desde a Idade Moderna.
- Ah hã. Quer dizer, Ho ho!
-…
-…
- E… O presente? – Virgínia questionou.
- Olha, eu preciso entregar presentes pras outras crianças mais… Comportadas. Pega aqui esse CD especial de Natal da Tori Amos e fica tudo ok?
- É. Bacana. Valeu, Noel.
- Ho ho ho! De nada, de nada.
E o Bom Velhinho pulou pela janela do duplex.