“1% bruto: I.U. JÁ!”
Friday January 27th 2006, 4:38 pm
Filed under: Uncategorized

No meio de uma fervorosa discussão política, entre Fidel e Lula, sustentando grandes argumentos e utopias de algum tipo de globalização positiva e humanitária, igualitária, humana, estávamos quatro de nós: visionários prematuros e testemunhas do lugar porcaria em que vivemos
A busca por um ideal seria assim tão empolgante? Saturados, conformistas e praticamente impotentes diante de toda corja fétida da própria natureza humana.
Povo = substantivo coletivo; Corruptos = substantivo coletivo. Difícil indentificarmos nós mesmos entre um ou outro, sendo todos iguais e ao mesmo tempo diferentes, entre inevitáveis paradoxos. Ultrajante, entristecedor.
Vontade é o que não nos falta e, de repente, a 2ª pessoa do plural perde seu significado.
A semântica atrapalha. Palavras também perdem seu sentido no meio de tantos longos séculos de auto-exploração, auto-consumo, auto-destruição. A iminência de uma crise instigada a cada centavo, e ninguém liga, porque o ninguém somos nós.
Jovens politizados, que diferença faz? Sim, NÓS queremos; sim, NÓS nos importamos; sim, NÓS faremos. Mesmo? A contradição entre o individual e o coletivo torna-se regra; não há “todos”, nem “povo”. Somos parte da mesma corja fétida; limítrofe e contraditória entre os poucos que querem e os outros poucos que conseguem o que não deveriam ter conseguido.
Controle, poder, lobotomia.
A liberdade falsária e hipócrita de um lado contra a não-liberdade explícita de outro. E o “verdadeiro” significado se perde. “Verdadeiro”, entre aspas.
Porque não existe democracia verdadeira; não até superarmos nossas próprias limitações e aprendermos que liberdade não é vadiagem, nem vandalismo e nem prepotência.
Culpemos a biologia, culpemos as células e átomos, que insistem em transmitir os mesmos erros e instintos de anti-coletividade desde seus primeiros indivíduos.
Soluções, idéias, iniciativas. Tudo fica pra depois. O primeiro passo deveria ser único, “do dia para a noite”. Fazer da contra-cultura regra é menos que o politicamente-correto; outra máscara. Revoluções, que de revoluções carregam apenas o nome, são outra prova patética da necessidade de realizações concretas.
São pessoas contra números e pessoas sustentadas por números, e o que realmente importa deixa de importar. Índole, caráter e moral deram lugar ao ego para se tornarem mais besteiras, que jamais terão o mesmo valor dos números para aqueles que os venderam.
E que mandem um BigMac para os cubanos, dane-se o resto. Falsa felicidade; o imediatismo. Um ciclo constante de todas as mesmas velhas coisas que nós mesmo criamos, impaciente e cada vez mais chamativo, sedutor. Milhares de pessoas mais trilhões de números. Amém. E se houver algum problema com isso, que comprem deus também.
“Eu quero uma vida simples e completa”.
Eu quero uma vida exuberante e completa. Simples assim.



Fim de Ano é o demo
Sunday January 08th 2006, 10:32 pm
Filed under: Uncategorized

“A beleza de não esquecer está no instante em que se acredita nisso”

E que parafraseiem melhor os cultos, ledores de pensadores europeus tão distantes física quando metafísica dos consumidores de suas palavras.
Tudo o que eu queria era algum tipo de saída para aquilo; a pressão, o choro, a insônia, o desgaste. Consegui. E é claro que o despertar de certos sentimentos demoraria a se concluir por inteiro e, talvez pela falta de tempo, eles não tenham sido recordados por completo.
Olhos. Dois grandes olhos redondos, enormes, na meia-luz de uma sala de cinema poeirenta. Dois gigantescos espectadores que pareciam prestes a me devorar. Por completo. Sugada por um tipo de zona do limbo no espaço sideral, como nos seriados baratos de ficção sci-fi.
E a boca. Pequena, estreita, quieta. Boca que calava numa timidez oportunista, até constrangedora. Porque os sentimentos demorariam a retornar e tempo era o que não havia. A boca que, sem palavras, me sugou num frêmito metaforizado pelos grandes dos olhos. E os sentimentos, que demorariam a retornar.
Tudo parecia, de certa forma, incompleto, mal lapidado, por vezes, sem sentido. Mas o abraço era o mesmo, este que sentia novo e familiar ao mesmo tempo. Como se esquecido e resgatado apenas pelo fato em si, jamais por palavras ou esforços vãos da memória. Um abraço automaticamente reaprendido.
Os longos e finos braços, também meio-iluminados pela tela ao fundo. Compridos, com os ombros nus, sustentavam o par de mãos mais finas ainda, com distintos caminhos azulados de veias em seu dorso. Veias azuis sobre mãos finas, de unhas longas descuidadas, mas ainda charmosas, que fizeram um desenho invisível sobre meu rosto, acompanhadas pelo movimento dos grandes olhos. E as mãos frias.
E estava tudo ali. Os olhos, a boca, os ombros nus, os braços, as mãos e unhas. Num paradoxo entre o desconhecido e o familiar, desconsertantes, ainda que prazeirosos. E demoraria até que fizesse sentido.
Demoraria, pois as peças ainda não se encontram perfeitamente encaixadas. Perfeitas, sob a perfeição que um dia fez tão maior sentido. Talvez seja culpa do tempo, insuficiente. Talvez seja a necessidade disso tudo. Talvez não seja nada disso.

“Use uma nova dor para fazer esquecer outra”, mal parafraseando novamente. E benditas sejam as más letras, pois “no mundo moderno, não há espaço para gênios”

E uma sobrepõe a outra, e as sucessoras apertam mais o peito, queimam mais, porém de forma diferente. E a variedade renova, e o novo alivia as pressões antigas. Portanto, pode-se dizer que o antigo provérbio chinês tem lá seu sentido, ainda que masoquistamente venha a ser um tanto preocupante.
E fecha-se o ciclo. E todas as energias fluentes do corpo-mente se renovam e, ao invés de retomarem o sentido, descobrem um novo. E assim por diante.

E os olhos. Os dois grandes olhos, devoradores de pensamentos e alma, excitantemente assustadores. Intrigantes. Quietos.
O concreto molhado, a chuva que persistia. Mais abraços, mais significados. Mais cafeína.
As horas que corriam duras, implacáveis. Ponteiros, cafeína, chuva, concreto, trânsito. A partida.
Sem despedidas, nem as palavras apaixonadas. Palavras aliás, mal trocadas o dia todo. O beijo dos lábios quietos e o olhar dos dois olhos devoradores. Estaria de volta em breve, mas temo que parte minha tenha sumido. Sob a chuva, sobre o concreto.