so sorry for being so bold
Sunday April 30th 2006, 3:14 am
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E é por entre atrocidades e ceticismo que nós andamos.
Se por um lado Joana tinha seus devaneios e raiva, vertiginosamente fluidos nas veias, cuspindo fogo, por outro, Concertina fizera nada além de fechar os olhos e se perder na própria ignorância. Fechadas, braços atados, seja pelo ódio, seja pela ingenuidade.
Fizeram ambas questão de marcar no mundo, pelo excesso e pela omissão, sendo paradoxal ou conseqüente, nada além de um pequeno ponto. Negro. Seco. Ponto-cego, ponto-falso. Vazio. Nada. Os extremos de uma linha contínua e frágil, traçada pelo simples motivo de existirem. Culpadas. Inocentes. Estúpidas.
Joana plena fúria, voz alta, estridente, penetrante. Batia os pés, gesticulava freneticamente na esperança de que jamais ouvissem o que seus olhos diziam, não sua boca. O espírito explosivo e contundente fazia-se frígido à mais tênue percepção. Joana cega.
Concertina, que nada de mais fizera, plena calma, plenitude. Abaixava a cabeça, entrelaçava os braços, inquieta pela possibilidade de ter sido vista. As palavras murchas e mal pronunciadas mal projetavam-se pelo ar, à margem de serem ouvidas por ouvidos vagamente interessados. Concertina cega.
Dos extremos, os erros. Bradava, insandecida, exigia a atenção. Demanda incessante pelo desprezo alheio, propositalmente. Sempre conseguia. Petulante, regurgitava um uníssono banhado de mesmice e asco, violenta, louca, frenética, como que saída de um filme interminável, do qual falam tão mal que causam o suicídio do diretor. Silenciosa, ausente, queria sumir. Fazia de sua própria presença algo tão vergonhoso e constrangedor que os presentes, até os mais condescendentes, desejavam sua partida. Seu desprezo por si mesma era pungente, azedo, agulhava em todos os estômagos do cômodo como veneno barato, exasperava uma vastidão nula e estéril de algo que um dia fora uma pessoa.
Joana cega. Concertina cega.
Dos extremos, a nada otimista leitura de páginas abertas, escancaradas, espalhadas na frente de diversos olhos. Cegos? Páginas do que se escreve agora. Aqui. Páginas de atrocidades e ceticismos, nada otimistas, vulgares, frente à olhos e ouvidos dotados da mais tênue percepção. Acordemos.