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parte I: Hoje Era o Dia de Marilda
Marilda tivera consecutivos dias do mais puro devaneio consciente, da mais límpida falta de clareza emocional e da mais desconcertante incoerência de sua postura.
Os dias belos e levemente chuvosos faziam-na respirar fundo, a plenos pulmões, todas das manhãs. Desperta, ainda que sonada, brandia sua ode ao clima paulistano, escovava os dentes ao som do rock’n'roll e brindava a construção vizinha com uma bela xícara de café. Os dias eram longos e cansativos e, para seu deleite, esvaíam até a última gota de sua capacidade mental, o que implicava menos detalhes de sua vida pessoal fervilhando incontroláveis em sua pobre cabeça, como quando no ócio.
Passaram momentos, horas, dias e, por fim, semanas nas mesmas condições. E, é claro, que o destino, entediado, destinara à Marilda um dia, um único dia, cheio de surpresas e fortes emoções.
Manhã fria, ainda que ensolarada. A ode, o rock’n'roll e a xícara. Como se a rotina desejasse ser molestada, deu as mãos ao já mencionado destino e se estilhaçou, espalhando, irônica e sorridente, dezenas de milhares de pequenos fragmentos vítreos pelo ar da mesmice enquanto esta, dominada pelo sono da manhã, fazia-se de inocente desentendida.
-Vadia… - Murmurou nossa protagonista.
Marilda detestava surpresas. Marilda espasmódica, neurótica e patologicamente psicótica, fazendo juz à aliteração de seus adjetivos, num frêmito, gritou palavras chulas e amarguradas dentro de si mesma. Gritara em sua própria desolação, muda, constipada, em sua própria defesa, em seu próprio suicídio homeopático. Por dentro, a jovem acabara de extripar suas mais suculentas visceras usando palavras silenciosas, enquanto, por fora, baforava sua fedorenta nuvem de cigarros e apenas sorria.
Passados os primeiros instantes de antagonia, nossa protagonista já respirava mais tranqüila, praticamente controlada – as pílulas fazem efeito mais rápido quando mastigadas – e, tão surpresa quanto momentos atrás, percebeu o quão agradável certas reviravoltas podem ser e o quão precipitada tinha sido em suas conclusões iniciais. Marilda, epifânica, cara-a-cara com o fim iminente de sua doença, com a chave psicanalítica da porta de sua sanidade: passada a angústia inicial, o inusitado revelara-se não um pedregulho, mas um grão de areia, e se orgulhou da própria capacidade de superar suas dificuldades com humor e destreza.
Marilda vencera seus medos apenas apertando os olhos e aguçando os ouvidos da alma, certa de que todos os anos no divã poderiam ter sido evitados com a mera sagacidade, com o poder da improvisação diante o desconhecido. E, mais tarde naquele dia, deitara sua cabeça, tranqüila, sobre o travesseiro, ao som do rock’n'roll, na certeza de que dominaria o amanhã com as mãos habilidosas da perspicácia.
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parte II: Haikais
Haikai – poema japonês de três versos e desessete sílabas no qual o primeiro e o terceiro verso são pentassílabos e, o segundo, heptassílabo
Haikai I
Minhocas sem, ora
Bolas, ora a certeza de
Serem só senhoras.
Haikai II
Voyerismo vem
Sempre para nunca nos
Expormos também.
Haikai III
Mas para quê dar
É verbo se nem assim
Dá pra conjugar?
Haikai IV
Vontade de ter,
Querido, o que eu mais queria.
Sem ninguém me ver.
Haikai V
Saber esperar
É ver o sangue debaixo
Das unhas secar.