bartholomew said she looks like a bird
Sunday June 04th 2006, 4:20 am
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Dorotéia, cansada, ansiava pelo dia em que seus pensamentos solitários tornassem-se finalmente não sós. A insônia, os vícios e a angústia amargaram seu interior, fazendo-a envelhecida. Os lábios secos, os olhos inchados, revelavam tudo o que seus intermináveis discursos existêncialistas sibilavam dia após dia. Meses após meses, as mesmas palavras, as mesmas reclamações, brotavam um sorriso amarelo nos dentes de Bartolomeu.
O dia amanhecera frio e o tempo, estático. Os vândalos insandecidos gritavam e, como uma referência estúpida a uma tribo neanderthal qualquer, rinhavam, atiravam pedras e paus um sobre os outros sob o mero pretexto da demarcação territorial. Grunhiam, esperneavam, chocavam seus corpos, enquanto Dorotéia, enfadonha, rabiscava gravúras sem sentido e traçava pequenos ensaios mentalmente, tentando manter versos inexistentes, imaginando o que seria de si longe do pequeno caos que, curiosamente, a fazia encontrar um resquício de superioridade mesquinha e – talvez – algum ritmo na loucura. Estava parcialmente adormecida naquele lugar, inerte às palavras e aos atos de selvageria, perdida dentro de si em pequenos hiatos, que resumiam praticamente mais da metade de sua permanência ali. Diria mais algumas frases estúpidas, frases para não serem ouvidas, consentidas por alguma outra alheia e tão pouco importante. E o tempo, estático.
Finda a hilária tortura, visitara um parente próximo que não estava lá. Dada a cara ao portão fechado, uma leve frustração – nada grave, no entanto. Uma adorável tia de olhos frescos e cão adoentado estava em viagem inesperada. Sentia saudades daquela que, há anos atrás, deixara-lhe de cama pela primeira vez por excesso de doces, ria das piadas de criança e se fazia ouvinte assídua de toda e qualquer baboseira que os enfantes delíram saudavelmente. Agora, passada a parte mais tenra da juventude, Dorotéia começava a enxergar com orgulho que, por detrás dos olhares compreensivos da tia, escondiam-se não só vivacidade, mas também os sinais da maturidade e da altivez. O pão e o vaso de flores murchariam sobre a mesa da cozinha, silenciosos.
Voltou a trilhar o velho caminho, numa breve aventura descompromissada. Um ônibus, uma avenida, um cachorro-quente mostruoso, a loucura vibrante da capital. Almejava divertimento sutil, distração. Leu e ouviu poemas esfuziantes, parágrafos de romances sombrios e tentativas de provérbios intelectualóides, folheava as maravilhosas páginas novas, excitantes, e por muitos momentos sentiu-se menos alheia. Bartolomeu sorriu.
Dorotéia, cansada, deu o braço a Bartolomeu e seguiram pela calçada suja. Reclamou mais um pouco, riu mais um pouco. Dorotéia sábados à noite em casa, Dorotéia irresponsável e medíocre, Dorotéia maus hábitos alimentares, Dorotéia filha pior mas favorita, Dorotéia insônia e dor nas costas, Dorotéia libidinosa pornográfica necessitada, Dorotéia quero mudar o mundo, Dorotéia pechinchar no camelô, Dorotéia vamos comer doce, Dorotéia vamos para casa. Dorotéia, Dorotéia, Dorotéia, Dorotéia, Dorotéia, Dorotéia.
Adentrado o coletivo, jogou-se no assento e simulou dormir com um abaixar de pálpebras. Passavam os prédios, os carros, e a superlotação permanecia. Espiava indiferente o movimento através da janela quando – de súbito – deparou-se com o início e o fim do que alegava ser vida. Numa maracutaia sádica e experiente, o destino lha arreganhara os dentes e jogara em seu colo a ironia mais perversa e rude que sua falta de bom senso permitira. Os cabelos – mais escuros? – ondulados sobre os ombros, os olhos vítreos e gigantescos, os lábios pequenos cerrados, as roupas pretas. A perdição, a epifania, o atropelamento, o choque contra um muro de tijolos, a pontada no estômago, a dissecação do coração. Ao lado. Dorotéia, toda pânico e desolação, fez o que o mais putrefeito de seus instintos orgulharia-se – escondeu-se. Pôs os braços sobre a cabeça e jogou o torso sobre Bartolomeu, assustado. A infâmia cobrira Dorotéia de desgraça e, ainda que os mais profundos desejos desta quisessem jogá-la coletivo a fora, para aqueles doces e sempre acolhedores braços, tudo o que fizeram foi torná-la a mais patética e interte forma de vida de todo o universo. Dorotéia burra. E o tempo, perdido.
Passaram mais prédios, mais carros e a superlotação ainda presente. Desceu da lata sobre rodas e quis morrer. Gemia, suspirava, esperneava, calava, despencava chuvas de murros sobre os braços do pobre Bartolomeu. Este, irresoluto, tentava consolar a eufórica, proferindo palavras amenas, benevolentes, reconfortantes. Dorotéia, cansada, deu o braço a ele e desceram pela calçada suja.
Chegaram, então, ao paraíso sublime e mais reconfortante que poderiam na situação – a doceria. Dorotéia, ainda inconformada, esfarelava a montanha de bolo de chocolate e morangos com o garfo plástico, enquanto Bartolomeu, cabisbaixo, assinava sua rendição ao interminável conflito contra os resmungos irrefutáveis de Dorotéia. Comeram silenciosos e retornaram ao apartamento desta. Ouviram Bowie e seu Rebel Rebel cura-males. Os últimos suspiros de Dorotéia e as últimas palavras de Bartolomeu – “Ela parece um passarinho”.