silmara, 41, dona-de-casa
Silmara, coitada
Doente, sem dente, abandonada
Pelo marido Barrigudo
E pela amante
Num mesmo dia,
Na mesma tarde, coitada
Não sabia se chorava, sorria
Ou continuava deitada
Na cama vazia
Silmara, pobre!
Foi falta de calma - dizia a vizinha -
Silmara, apressada,
Espantou da cama quem não devia!
Silmara, desconsolada
Me botem num pote! – gritava -
Rosqueiem a tampa,
Ensaquem num saco!
Ai, vida! Ai, asco!
Silmara, sem dente,
Doente da alma,
Coitada, traiu e foi traída
Sem saber que o pior
Ainda não vira
Barrigudo, o marido, dormira
Com a amante de Silmara, Zumira
Zumira, tarada, gritava -
Tirem Silmara do pote! Coitada,
Sem dente, nem alma, a culpa
É da pressa! Apressada,
Silmara, sai do pote!
Silmara, no vidro, no saco,
Encolhida de tamanho,
Sem dente, nem alma, coitada
Silmara, no pote, sem saco,
Bufou e latiu finalmente
Cansou da vida de oprimida,
De Amélia usada, abusada
E comida
Silmara desatarracha a tampa do pote
E grita – Zumira, tarada,
Tá morta! Tá frita!
Silmara freaked out, agarra
A faca de cozinha
Que a vizinha emprestara
E crava no peito da safada
Que ganhiu um grito agudo -
Vaca! - e morreu
Por fim, Silmara,
Sem dente nem alma,
Fita o Barrigudo,
Que de nada agudo tinha o grito
Quando Silmara lhe meteu a faca.

carta para ninguém
E das milhares e múltiplas personalidades interpretadas, escolho esta. A que escreve esta carta; sem destinatário e quase sem remetente.
Escrevo para que as cismas evaporem, diluam-se no suor e se percam através dos poros. Escrevo porque as palavras já não importam mais.
A (quase) certeza de que não lerá priva-me de inibições. A dúvida de que, talvez, passe os olhos por isto torna tudo muito mais interessante. Não. Tenho certeza.
Demorei dias pra te esquecer. Dias que, como pequenas eternidades, ainda não passaram. Porque dias ou pequenas eternidades ainda não me fizeram esquecer das suas manias – a curva da sua boca quando tragava a fumaça do cigarro.
Talvez, a petulância; talvez, os papéis. Talvez, as tragédias; talvez aquele tipo de felicidade não nos pertencesse.
Estranho. Talvez sinta mais falta das palavras do que dos beijos. Do cheiro do travesseiro, dos pensamentos escondidos.
A subjetividade era o substantivo. A pele, os cabelos, os lençóis. Não. Talvez. Um pouco.
Amaldiçôo e lamento. Sem razões ou porquês, pelo prazer de contemplar as próprias tolices, de rir da própria estupidez. Amaldiçôo, lamento e escrevo. Porque talvez precisasse grunhir letras para dizer que sinto sua falta e que chego a te odiar. Te odeio, sim. Sinto sua falta, sim. Te odeio porque seu desdém era verdadeiro e porque sua sinceridade fere como unhas e mordidas. Porque suas verdades sempre foram maiores do que minha persistência e porque cada tom de desprezo em sua voz fez um buraco de bala no meu peito. Sim. Talvez.
Escrevo porque não deveria, porque, talvez, sinta a falta da pessoa errada. Porque sei que esta carta você não responderá.
As suas, ríspidas, intrínsecas. Sua raiva me era tocante, comovia. Eriçava a nuca. E a inquietude me bastava para não conseguir te deixar em paz.
Esta carta é para Ninguém. Esta carta não tem destinatário nem remetente; é um pedaço de folha com letras, é um desabafo estúpido e egoísta.
O tempo ficou para trás, distante. Mas não consigo e nem quero esquecê-lo. Esquecer das suas dores, da sua angústia e dos seus transtornos. Não. Ainda não. Porque não posso me esquecer do que nunca foi meu. Do que, ingenuamente, clamei posse sem nem mesmo saber o que era. Não. Não me foi dado. É claro.
Carta para Ninguém, que me fez ver o quanto sou tola e o quanto de mim precisou de Ninguém para se manter em pé. O quanto de mim caiu por terra, em pedaços. Porque Ninguém me machucou. E gemi, estúpida, sem ver que Ninguém estilhaçara parte muito maior de si. Talvez.
Sim, egoísmo. Sim, estupidez, tolice, eu sei. Porque gostaria de saber o que aconteceu contigo agora. Porque sei que não tenho mais o direito. Porque Ninguém não me pertence. E porque sou egoísta. Sim.
A carta? A carta é mais um gemido, mais uma invasão, mais um atrevimento. A carta é porque sua raiva um dia foi intimidade e viu na minha raiva o que todos acreditavam ser tolices. Porque seu ódio e desprezo um dia foram doçura e acreditou, por alguns instantes, que valia a pena sentir. Porque um dia meu orgulho caiu de joelhos e me fez chorar na sua frente, na frente de todo mundo. Porque Ninguém acreditou em mim.
A carta é porque o agora se perdeu e o agora não faz mais sentido. Porque talvez assim eu possa começar a me esquecer de você. Talvez. Não.
Nunca te amei.
Sinceramente,
Clarinha.