linger a while
Monday August 14th 2006, 2:47 am
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Quente. O ar estava sufocante e a brisa quase inexistente soprava aridez e estaticidade.
- E, então, estamos chegando?
- Quase.
- Meus pés estão latejando. É sério, estamos chegando?
- Minha cabeça também está, mas você não me ouve reclamar.
- Não com palavras, pelo menos.
- Estamos perto.
- Quisera eu conhecer sua noção de distância.
- Estamos perto.
Não fossem as curtas interjeições ou resmungos, o dia seria tão solitário quanto sem nome.
- Ainda não?
- Hum.
- E agora?
- Hum.
- Ainda?
- Ainda.
As folhas das árvores eram secas, enrugadas como massa cinzenta. Não se mexiam, nem repiravam. A calma aspirava a indiferença e a morbidez.
- Mais cinco passos e oficialmente assino minha desistência. Juro.
- Mais um juramento e te deixo aqui.
- Jura?
- Nunca jurei nada. Tampouco pretendo começar agora.
E se pudesse fechar os olhos, juraria que o mundo parou de girar. Calma. Morbidez. Desistência.
- Preciso de água. Além dos pés, não sinto mais a garganta.
- Ótimo. Não precisará dela quando chegarmos.
- Ainda me resta a língua.
- Não se pode ter tudo, não é?
- Cinco línguas não teriam metade de sua ironia.
- Uma única garganta seca, talvez.
- Venderia a sua por um copo d’água, pode ter certeza.
- A sua não valeria nem o copo.
- Mais um sorriso desses e eu bebo você.
- Meu corpo ou minha vida?
- E tem diferença?
- Se quisesse beber o corpo, morreria pelo esforço e pela frustração de não ser bem sucedida.
- E se bebesse a vida?
- Teria que beber primeiro a irônia.
O asfalto sorria e golfava vapor, e mesmo que o branco das nuvens maquinasse planos para encobrir o céu, não passava de um pequeno ponto aveludado. Único e insignificante.
- Posso fazer uma pergunta?
- Desde que aceite só uma resposta.
- Quem era você antes de partirmos?
- Uma fingidora.
- E que tipo de reposta infeliz é essa?
- Não era uma só pergunta?
- Uma pergunta, uma resposta. Nova pergunta, nova resposta. Esse é o jogo.
- E que tipo de jogo infeliz é esse?
- O tipo de jogo que irá me satisfazer até chegarmos ou até você me dizer aonde vamos.
- E se eu não quiser?
- É só continuar mentindo.
- Uma fingidora de verdade nunca mente.
Escaldante. A temperatura beirava a insanidade e mesmo um louco não toleraria aquele tipo de crueldade. Sem brisa, ou sombra, ou abrigo. A continuidade era inevitável.
- Muito bem. E isso dá dinheiro, ao menos?
- Se você quiser.
- E como se faz isso?
- E como não se faz isso?
- Eu não faço.
- Você mente.
- Não de propósito.
- Nem eu.
- Uma pergunta, uma resposta.
- Uma distração, uma mentira.
- Seu jogo de palavras é tão brilhante quanto o sarcasmo.
- O seu é apenas engraçado.
- Mais um risinho e arranco seus dentes.
- Mais uma pergunta e te deixo aqui.
- Faria isso?
- Por que não?
- Porque disse que me levaria junto contigo. E fingidores não mentem.
Era uma estradazinha mirrada, onde mal cabiam dois. O nada em ambos os lados estendia-se infinito. Nada cercava o caminho. Acima, apenas o fiapo de nuvem.
- Então, você foge?
- Não fujo. Parto.
- E tem diferença?
- Fugir é arrependimento.
- E fingidores não se arrependem, presumo.
- Eles partem antes disso.
- Mas nunca se arrependeu?
- Vez ou outra.
- E o que acontece? Você parte?
- Fujo. Aí, sim, é uma boa hora.
- Como agora?
- Se te contasse um pouco, teria que te contar tudo.
- E se contasse tudo?
- Aí não fingiria mais.
- E se não fingisse mais?
- Te deixaria aqui.
O cansaço inebriava a respiração que, relutante, cessaria caso dela não dependessem os outros órgãos.
- Mais alguma pergunta?
- Estamos chegando?
- Sim.
- Maldito inferno.
- Ainda não.
- Alguma reminiscência cristã a ser compartilhada, por acaso?
- Não.
- Culpa?
- Alguma.
- A culpa é muito cristã.
- A consciência, não.
- Redenção?
- A redenção é muito cristã.
- Arrependimento?
- Nunca.
O quase monossilabismo cortava o imenso vão entre a curiosidade e a exaustão física.
- Quando chegarmos, você vai partir de novo?
- Provável.
- E nos veremos de novo?
- Não.
- E se precisar falar contigo?
- Não precisará.
- Porque fingidores são solitários?
- Porque cada pessoa é um instante.
- E se este instante se estendesse por um longo tempo?
- Muito?
- Uma existência inteira.
- Uma existência é um instante.
- Então te verei de novo.
- Não.
- Acho que quero te ver de novo.
- Novo instante, nova pessoa.
- Verei sua nova pessoa.
- Você também terá nova existência. E pode, então, não querer me ver novamente.
- E se quiser?
- Se quiser muito.
- Se quiser muito?
- Quanto?
- Uma longa existência.
- Hum.
- Uma imensa existência.
- Hum.
- Incomensurável instante. Enorme. Infinito.
- Hum.
- Sim?
- Talvez.
E o minúsculo ponto aveludado se encorpou. Virou punhado, que virou porção, que virou uma enorme massa. O branco felpudo dera início ao plano e esticara seus braços para encobrir o nada. Cobriu o árido, cobriu o vazio, cobriu o instante. E, à plena satisfação, salivou salpicados do que uma existência inteira jamais acreditaria possível sentir.