Esterilidade: Inspiração
Friday October 20th 2006, 12:02 am
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Se as árvores sussurrassem suas mais íntimas confissões, diriam-lhe que o sopro que rege a vida não há. Diriam-lhe que o mais tenro assoviar de folhas não é; que a tão intensa – ainda que sutil – dança de seus galhos apenas tangencia, contorna, e persiste. Das raízes, a estabilidade e, dos frutos, açúcar.
Se da boca de Maura saísse mais do que apenas ar, tomaria-a pelas mãos gentis e, num envolto silêncio, alcançaria seus cabelos sob os lábios; tomados plenos e íntegros no universo mútuo de confidentes ainda desconhecidos, absortos no que seria o mais próximo do chamado existir.
É isso, o pensamento. São essas as sílabas não pronunciadas que tornariam sólidas as abstrações distantes.

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Valéria buscava o que cria não haver. Quisera, certa vez, um porta-retratos. Não um porta-retratos comum, mas aquele que tornaria as fotos – que não possuia – solenes, distintas, como se impusessem ao observador a verdade sobre a vida registrada naquele segundo, a história por trás daquele lugar e daquelas pessoas; das mais profundas ambições da jovem.
Ambígüa e trêmula, Valéria cerrava os olhos na esperança de encontrar a iluminação – determinada e precisa iluminação – que poria de volta aos trilhos seus sonhos infantis despedaçados. Culpava os avós, os pais ou qualquer viv’alma que tivesse cruzado seu caminho e, por entre olhares amargos e algum desprezo, invejava secretamente a felicidade com que jamais esbarrara. Exceto uma única vez.

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Ah, doce frustração! Sempre soube, desde muito criança, o significado do que viriam a ser meus desafetos. A cada passo falho – muitos e trôpegos –, a cada tolice dita, a cada conversa mal-interpretada; soube, desde os primeiros dias, que jamais os omitiria e que os carregaria sobre os ombros sem pesar. Arrependimentos jamais tiveram chance de se manifestar – permanecem recônditos e submissos, enterrados sob um amontoado de lembranças frívolas e ordinárias demais para serem meramente descartadas. Orgulho-me de cada cicatriz de machucados e não temo expô-las, como pequenas declarações de batalhas não ganhas, mas, nem por isso, derrotas. Não temo minha própria sombra – ou sombras alheias –, não temo, de fato, absolutamente nada; tenho consciência de meus erros e os admito sem pestanejar. Ergo a cabeça e a passos largos dirijo-me a intensos novos desbravamentos – engulo seco, mas sem jamais demonstrar a inseguraça que reside atrás de meus olhos.

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Mal chegara em casa – enfurecida, inconformada – e desejara ter entre as mãos o pescoço de um qualquer. Sua ira avermelhara sua face, como torturantes chamas do mais flamejante inferno, enquanto de seus olhos brotavam tímidas e ainda mais ardentes lágrimas. Rolavam e corriam por imensidões e imensidões de pele, cabelos, até por fim chegarem à gola da camiseta. Joana – tão frágil e ignorada – encontrara no poder traiçoeiro da violência a válvula de escape perfeita para sua mediocridade. As constantes discussões desenrolavam-se em berros e, finalmente, em tapas, socos e pontapés. Estriparia entranhas, cortaria gargantas e furaria olhos – o que fosse necessário para aplacar as dores pungentes que lhe tiravam o sono todas as noites, por três meses. O desespero que lhe arrancara a sanidade à unhadas – o suor nas costas –, que lhe fazia descrente, exausta e impregnada de podridão todos os dias. Dos mais breves acasos do cotidiano às mais risíveis fatalidades do destino, Joana estivera tão próxima de seu próprio fim que se refugiara no primitivismo insólito; desnorteada, encontrara em sua – então, desconhecida – fúria uma razão para continuar a despertar todas as manhãs. Em uma destas, desarmada pelo sono e pela inocente fragilidade reminiscente, deixou escapar um tímido sorriso por entre as cobertas – vira por entre o sol e uma árvore a silhueta de um passarinho de bico vermelho, que cantava tranqüilo e, principalmente, livre. Tarde demais.

arvore