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Ana não soube muito bem o que faria da vida durante aqueles dias. Estaria sozinha, com a companhia quase imperceptível da empregada em alguns. O apartamento era pequeno, mas reconfortante, com o chão todo empoeirado que a fazia lavar os pés na pia antes de se deitar. As tardes eram terrivelmente quentes e o sol parecia espetá-la com um milhões de agulhas nos ombros. Acordava muito depois da hora do almoço e tudo parecia conspirar contra seu sono de madrugada.
Saía sem procurar nada. Andava em passos pequenos e lentos, e os homens olhavam-na esquisito. Queria saber porquê, mas não tanto para perguntar. Um dia desses, quem sabe, um algum deles iria dizer-lhe que o salto-alto não combinava com a blusa ou que a tintura dos cabelos era muito estação passada. Demorara tanto tempo para achar um soutien que lhe ressaltasse os seios!
Ana sustentava em si um tipo preguiçoso de falta de entusiasmo. Por falta de estímulo, talvez, mantinha a mente deitada num colchão enorme e macio, onde espalhou diversas fotografias que a divertiam na medida exata. Nem mais, nem menos. Um pouco estúpidas, dosavam-na de nostalgia e de uma curiosidade engraçada sobre quem eram as pessoas que saíam de relance, figurantes por entre a paisagem.
Certa manhã, acordou mais cedo que de costume e resolveu pôr um vestido que quase nunca usou. Era azul bem claro e tinha um ar terrivelmente infantil. Não ligava. Prendeu os cabelos num rabo-de-cavalo, bem no topo da cabeça e foi dar uma caminhada por entre as ruas ensolaradas.
Iria ao supermercado? À padaria na outra esquina? Andava sem rumo. Na cabeça, apenas o rabo-de-cavalo.
Precisamente quarenta e três minutos depois de partir, viu-se perdida. As ruas em volta, todas pareciam estranhas, como as pessoas jamais vistas. Tentou refazer o caminho pelo qual tinha chegado lá, mas foi inútil. Perambulou desamparada sobre os paralelepípedos até uma ruela de terra batida. Sem saída. A placa amarela e torta ao final confirmou sua suspeita e a fez dar meia-volta.
Ao se virar, reparou num rapaz, próximo de onde passara alguns instantes atrás. Tinha lá seus vinte-e-todos. Trinta, será? Era alto e um pouco magro demais. Reparou, principalmente, em seus pés. Enormes, calçavam sapatos pretos surradíssimos. Os olhos, agora, percorriam pernas acima, até chegarem nos dois do desconhecido. Eram verdes? Castanhos? Tinham um formato triste e bonito, e por um momento, só eles importaram.
Ana sorriu timidamente um sorriso torto de aparelho de correção odontológica. Esperava algum sinal de retorno, qualquer que fosse. Que sorrisse de volta, que acenasse, que piscasse um daqueles olhos tão encantadores. E o rapaz fez-se estátua. Parado, sem nem mesmo parecer vivo.
Então ela correu ao seu encontro. No começo, apenas em passos rápidos. Depois, como se a vida dependesse daqueles dez metros. Pulou-lhe na cintura e entrelaçou os braços no pescoço branco daquele que talvez lhe desse uma história tórrida de paixão e aventuras.
O dono dos sapatos pretos ainda estático. A cena tornou-se um recorte trágico e irônico da solidão humana. Ana ainda procurou alguma resposta naquele rosto, que de repente parecia conhecer a séculos. Foi em vão. Nem mesmo um mero levantar de sobrancelhas.
Embaraçada como jamais estivera em seus oito anos de existência, Ana soltou os braços e, ao tocar os pés no chão, sujou-os com a terra batida.
