F de Filomena. F de Formiga.
Saturday April 07th 2007, 3:21 am
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Filomena andava atormentada por pouco. Cética o bastante, mas não sádica o suficiente, sentia levemente falta de si mesma durante os dias. Tão pequena e tão ilustre, desejava num tão profundo que destoava com seu tamanho. Queria algo grande. E estrondosamente sonoro.
Acordara certa manhã irritada com sua mais nova patologia: formigas. As minúsculas bestas articuladas subiam-lhe pelos braços, sintomaticamente, como que num ritual encomendado por Dalí na sua mais bizarra e profunda inspiração. Ainda sonada esmagou instintivamente os dois insetos, que no momento lhe percorriam as costas das mãos.
Tomou alguma consciência e sentou na beirada da cama, afagando os cabelos. O relógio marcava hora alguma, com os ponteiros embaçados e disformes. Ignorou. E, enquanto o mundo real finalmente se distanciava dos sonhos ultrajantes que fervilhavam a cabeça, olhou para o travesseiro e hesitou; talvez pudesse deixar o próprio corpo de volta ao etéreo conjunto de imagens que, embora confusos, faziam muito mais sentido do que todo o resto a sua volta. Ignorou novamente.
Filomena, nas ruas, assemelhava-se àquelas formigas estúpidas. Seus pés faziam movimentos curtos e rápidos, mas seus passos pareciam incrivelmente vagarosos, como se patinasse sobre o concreto e a mecânica de seu corpo fosse a mais ineficiente ironia da natureza. Caminhava à procura de algo para comer. Seu instinto básico de autopreservação, ao menos, funcionava.
Os demais a circundavam numa quase euforia. A pressa das cidades. E, quase atropelada pela própria espécie, desviava daquelas pernas e troncos enormes – quase não via as cabeças, de tão altas – e seguiu seu caminho levemente irritada até se sentar um estabelecimento qualquer.
O mau-humor era triste, mas lhe enchia as veias e lhe entupia quase todas as artérias. Queria explodir pela metade, morrer parcialmente, desaparecer somente a parte de cima. Que lhe sumisse a cabeça, e o resto do corpo perambulasse furioso, como aquelas pessoas. Desejava causar-lhes o horror da desorientação, confundir cada uma daquelas infames aberrações até que elas mesmas implodissem numa nuvem de risos histéricos e… – O quê? Ah, sim, o pedido. Obrigada. – Respondeu gentil e almoçou em silêncio.
Ao final da refeição, Filomena observou extasiada: mais uma besta. Suas antenas sacudiam e a infeliz não parava nem por um instante. Corria em círculos, ia, voltava. Subiu no garfo repousado na mesa, depois seguiu pelas bordas do prato. – Mas que coisa mais escrota… – divagava, enquanto o bichinho finalmente alcaçava seu obstáculo interessante: o braço de Filomena.
Quanta audácia! –, as palavras corriam por sua mente numa mistura de ira e intriga. Sua primeira idéia foi, naturalmente, matar a pequenina formiga. Esmagá-la com os dedos simplesmente. A segunda, um pouco mais cruel, esborrachá-la não por inteiro, mas apertá-la levemente em alguma das partes, para que, agonizante, soubesse que seu sacudir de antenas não era nada bem-vindo por aquelas bandas. A terceira, mais ponderada, foi a realmente escolhida: deixar a infeliz trafegar livremente, e ver qual era sua animalesca intenção.
Absorvida naquela entomológica pesquisa assistiu estática às peripécias daquele corajoso espécime. Dos pulsos ao antebraço, do antebraço ao cotovelo, do cotovelo ao ombro, do ombro à clavícula, da clavícula ao tórax e, no toráx, o lado esquerdo. Parou.
Filomena estava absolutamente desnorteada quanto à pequena viagem da pequena desbravadora. Esta, surpreendentemente, agora permanecia parada sobre o peito daquela. Apenas as antenas continuavam dançando frenéticas.
De tal ponto de vista, a formiga não parecia tão minúscula assim. Tinha duas bolinhas brilhantes nas laterais da cabeça e um par de pinças horizontais que acompanhava o movimento das hastes sensoriais. Filomena, atônita, parecia dormir acordada, com o pescoço arqueado para frente e o queixo quase encostado no próprio tronco. E, enquanto fitava, a formiga pareceu diminuir. Lentamente, mas realmente parecia mininuir.
E, a formiga encolheu e virou um ponto. Um ponto preto com dois tracinhos, que se tornou apenas um ponto preto. Que se tornou um tracinho. Que se tornou apenas um pontinho. Que desapareceu sobre a camiseta branca da observadora.
Filomena tentava apertar os olhos, mas não encontrava o inseto. Tentava sentar-se ereta e balançava os braços para cima e para baixo, procurando avidamente por toda a superfície de seu corpo. Abanava a blusa, corria a mão sobre a mesa e vasculhava por entre os talheres, o prato e o copo.
Filomena, num salto, já ultrapassava a porta da lanchonete, correndo para qualquer outro lugar, ainda abanando os braços e as roupas, na esperança de lançar aquele ser assustador de si mesma. Dobrou a esquina, sem fôlego, e agachou recostada na parede.
As lágrimas estavam secas, mas ardiam por dentro dos olhos. Podia sentir a falta de ar queimar na garganta e a cabeça ficar leve, zonza. Baixou a cabeça e inspirou uma única e longa vez para, então, expirar vagarosamente. Foi então que olhou para o chão.
Uma enorme risca preta no chão vibrava uníssona. Era uma multidão, um exército. Eram milhares e milhares de pontos negros com tracinhos em grossas fileiras, num batalhão invencível, em direção aos pés de Filomena. Subiram, trilharam seu sapato, sua panturrilha. Seu joelho, sua coxa, sua barriga, em direção ao peito. E Filomena não teve tempo nem mesmo de fechar os olhos.

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