crooked on the outside inside’s caved
Sunday July 22nd 2007, 2:51 pm
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Três maços de cigarro – Ela – Três maços de cigarro por dia e ainda assim eu não consigo explodir – repetia a si mesma, do jeito que apenas os esquizofrênicos fazem. Era quase de manhã quando finalmente conseguiu achar um relógio em meio àquela bagunça, o céu tinha uma cor aveludada e o ar era tão frio que quase conseguia ouvi-lo murmurar.
Acordo todos os dias – desta vez, não a ela mesma, – neste mesmo quarto, sobre este mesmo chão – mas à grande parede branca que emoldurava a janela – e começo a perceber que tudo isso pode não passar de uma piada. Uma grande e gorda piada de mau-gosto.
Tudo simplesmente parece errado. As horas correm do jeito exato como não deveriam e o que me resta dos dias se entulha num emaranhado estúpido. Tão estúpido que chega a ser provocante. Fica esbanjando essa… Ironia petulante, que só o tempo tem – Descabelada, suja e, agora, louca. Sim, irônico o tempo.
Eu entendo, eu entendo… – Desviava o olhar, envergonhada pelo enorme julgamento moral – sempre fui aflita e instável, – que a parede lhe demonstrava. Se deixasse de ser inanimada, aquela pilha de tijolos certamente chacoalharia a cabeça de um lado para o outro – mas é difícil me esquecer daquele olhar e daquele sorriso. É algo assustador ver tantas coisas ao mesmo tempo. “Queimaram meus livros”, – Repetiu as palavras que acompanharam as tais coisas, inflando o peito e forçando um pouco a voz – não consigo reproduzir exatamente como essa frase ressoou. Era uma dor que… Transpirava orgulho. Como quando se passa os dedos sobre uma cicatriz.
A freqüência de seu corpo a incomodava. – Não pensei que algo tão besta, – Corria os dedos sobre a garganta – pudesse ficar marcado em mim até agora. Já faz quanto tempo? – Cada batida do coração se espalhava até a cabeça, ecoando, como numa imensa catedral, quando nem mesmo deveria ser ouvida. As mãos ficaram frias – Anos. Anos e o mesmo olhar. O Mesmo sorriso… – outro tipo de som trilhava o vazio.
Às vezes tenho uma vaga sensação de poder controlar meus próprios sentidos, – Jogou-se de costas na cama – e também acho que alucinações forjadas não devem ser desprezadas. – Ouviu seu novo interlocutor, o teto – É claro que já inventei ter visto e sentido coisas. – e, naturalmente, respondeu-lhe – A maior delas foi o desejo de possibilidades. O desejo de sentir aqueles cheiros no ar, tão pungentes, que apenas se sente com os olhos fechados. Os mesmo cheiros que carregam para longe a gentileza mesquinhada dos idiotas embrutecidos. É. – Descabelada, louca, suja e supreendente e assustadoramente sensível.
Acho que inventei ter desejado aqueles segundos em que se abre os braços – levantou para espiar os primeiros sinais da manhã despontarem – e se acolhe uma trégua. Entre você e as novas inquietudes, os novos tremores na espinha, as próximas futilidades. – A luz ainda era frágil e o céu ainda tinha a cor aveludada, – A trégua entre você e sua culpa, – o ar ainda era frio – a sensação de alívio que te deixa tomar fôlego em paz e desperdiçar qualquer instante que quiser, porque assim, as horas não passam erradas.
A manhã deu seu passo repentino e a claridade encheu o quarto – Desejei sentir isso. – e com o novo dia, as velhas necessidades. Saiu para comprar cigarros.

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