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Quando Ofélia sentia-se triste, entalhava desenhos nas costas de seu cachorro com uma lâmina de barbear.
Puxava o animal pelas patas traseiras e o prendia firmemente entre os joelhos, para que ficasse imóvel – a tela de um pintor não se contorce ao toque do pincel. Com a mão esquerda, segurava o focinho, o que evitava dentadas e abafava ganidos. Com a mão direita, munia-se de seu instrumento favorito e executava com impecável graça os primeiros rabiscos.
Os sulcos sinuosos transmitiam sensação de intenso prazer à artista, que se regozijava no mais puro e profundo êxtase. Para cima. Para baixo. De um lado ao outro. Ofélia revirava os olhos, suava um suor contente enquanto a pele do pobre se abria.
O corte inicial era bem de leve, sutil, como o toque da língua no primeiro beijo entre estranhos. Os seguintes eram mais íntimos, instigantes, e alcançavam, com cada vez menor timidez, o deleite de amantes já familiarizados. Perto do ápice, as mãos desferiam golpes pesados, ainda que magistralmente precisos, e a composição se aproximava do auge de sua existência – o momento da mais elevada glória, o clímax do coito, a mais plena satisfação do artífice – e Ofélia sentia o que apenas Da Vinci ou Van Gogh sentiram.
Uma superfície de pano emoldurado pode receber diversas camadas de tinta, sendo assim reutilizada diversas vezes. Um bloco de mármore arruinado pode tornar-se belo após duas ou três investidas habilidosas. A carne macia de um cão, no entanto, não é reaproveitável nem resistente o bastante para preservar sua vivacidade depois de quatro anos.
Então, entre cicatrizes e calombos, seria necessário finalmente descartar o animal-tela.
Passados os instantes de maior alvoroço epifânico, Ofélia desferiu a pincelada que concluiria tanto tempo de labor. O metal desceu veloz e piedoso, quase zunindo no ar, como que quebrando o silêncio de uma sinfônica ao final do concerto ou de um quadrúpede já desfalecido.
O sangue empapava a pele e os pêlos de ambos, mas apenas um trazia no rosto olhos brilhantes e sorriso. Ainda levemente inebriada pelo gosto da tinta rubi que respingara em seus lábios, não se contentou com apenas observar.
Ofélia largou a lâmina de barbear no chão e introduziu os dedos no último corte – o mais profundo – contorcendo-os delicadamente. A pele separou-se dos músculos num barulho úmido e prazerosamente repugnante, formando uma fenda confortável e quente.
Mais internamente, os dedos sentiram algo liso e um pouco pontiagudo. O indicador e o polegar formaram uma pinça e assim puxaram o que se revelou um pequeno pedaço de papel dobrado. Naquele momento, já tinha se infiltrado até à metade do antebraço na caverna de sua obra, mas não foi preciso força para sair.
Contemplou o papelzinho por alguns segundos, para então desvirar suas beiradas escorregadias e descobrir a seguinte mensagem: