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Já havia passado três semanas, dois dias e cinco horas para que Antônia apenas percebesse que estava perambulando num cômodo vazio.
O sol craquelava a janela em calor, enquanto as paredes dispersavam alguns raios amarelos e mais pensamento algum. Ofegante, Antônia amaldiçoava o ar abafado e lamentava descobrir que não havia nada que pudesse ser feito a respeito. Lamentava mais ainda saber que são muito poucas as situações em que não se pode fazer realmente nada.
Andava estúpida até se lembrar de que seu plano falhara e que falsos rituais de passagem lhe foderam a vida numa ainda mais falsa esperança de novos e refrescantes dias. Uma pessoa transformada. Tudo o que sempre desejou à custa de um pequeno sucesso – cumprida a meta, lhe esperaria de braços abertos o mais profundo êxtase de plenitude e regozijo –, mas falhara. Antônia, definitivamente, falhara.
Revia em sua mente o processo do começo ao fim, cada instante, na busca pelo exato momento em que poderia ter feito diferente. Cada palavra, cada gesto, tentava recordar se, alguma vez, dissera a si mesma que era a hora de parar. “É agora. Já chega”, pensava ter visto em sua cabeça, para que o desolamento lhe tomasse conta após a abjeta tentativa de aplacar, inconscientemente, a própria culpa.
O corpo treme, os pés tentam rumar pelo chão cinzento. A idéia da perda era como cair de um edifício, quando, no ar, o único pensamento que permanece é o de choque iminente, sem a mínima possibilidade de salvação.
Passaram três semanas, dois dias e oito horas para Antônia apenas perceber como o confinamento pode ser ensandecedor.
Bastaria só mais um dia para que Antônia soubesse, através do breve telefonema de seu advogado, que passaria outros nove anos, quarenta e sete semanas, quatro dias e doze horas trancada numa cela por ter, deliberadamente, atirado naquele senhor durante o assalto.

