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Era enorme.
Era cinza.
Era algo que talvez se parecesse com uma pedra.
Uma pedra enorme.
Quando Maria acordou já estava escurecendo de novo, e Aquilo estava lá.
Era algo enorme, cinza, enrugado e cheio de fendas.
Se aquilo fosse uma pedra, seria tão grande quanto um pequeno planeta. Um pequeno planeta com seu pequeno nariz empinado, petulante e orgulhoso por não ser apenas um meteorito qualquer. Embora pequeno, era enorme.
Maria esfregou os olhos. Não comia, só bebia chá e fumava cigarro sem filtro. Maria tinha olheiras fundas e do fundo das cavidades roxas que perfuravam sua cara, duas bolotas amareladas, que um dia, talvez, fossem seus olhos, brotavam como dois furúnculos.
Maria estava estarrecida com o tamanho daquele negócio.
Tinha sonhado coisas terríveis e familiares, do jeito que só os sonhos são. Sonhou também com uma casa velha e com pessoas peladas. Mas aquilo desdobrava todo e qualquer possível devaneio onírico de quase todo e mais que impossível devaneio de sua cabeça fatigada.
“Puta que pariu”. Foi só o que ela conseguiu dizer.
Estava sentada na cama, grudando o lençol até a altura do nariz. E embora não mais que um murmúrio coberto por um pedaço de pano, as palavras que disse soavam claras como um holofote.
“Puta que pariu, que porra é essa”.
Maria encarava o pequeno planeta cinzento com seus olhos de furúnculo, e mesmo praguejando todos as palavras sujas que conhecia, não conseguia descrever a sensação de acordar e dar de cara com algo que jamais sairia dos sonhos do mais ultrasubinconsciente fumador de ópio do século passado.
Aquilo estava realmente lá.
Tentou piscar. Piscou.
E lá estavam dois.
E então Maria não proferiu palavra alguma.
Dois.
Duas coisas monstruosas, esfarelentas e craqueladas. Semelhantes à radiografias de duas grandes e gordas células cancerosas. Eram dois enormes tumores que riam da cara de Maria, pelo simples prazer de a aterrorizarem fora de seu corpo, tanto quanto se estivesses em algum de seus tecidos.
Maria encarava suas anomalias celulares extracorpóreas, estática. Agarrava o lençol com tanta força que a metade de cima de sua cabeça já não recebia mais sangue. Começava a ficar levemente tonta e dormente. Não se atreveria a mexer um fio de seu cabelo desgrenhado de sono. Mas mexeu quando piscou novamente.
E, então, eram três. Três.
E, então, o pequeno e fibroso coração de Maria estalou como uma porta de madeira esburacada por cupins selvagens africanos. Artérias, veias, átrios, ventrículos. Imaginou os slides das aulas de biologia de colégio. Via seu próprio coração projetado numa tela branca, enquanto comia uma barrinha de cereais e rabiscava aquelas três monstruosidades cor-de-carvão em seu caderno. E a projeção do órgão cardíaco era deliberadamente invadida por toda a sorte de larvas, minhocas, tênias e solitárias gosmentas.
Maria não mais respirava.
O resto de seus pulmões pretos entraria em colapso, caso o peito dela não cansasse de resistir à trágica vida que levava.
Duas bexigas de borracha frouxa carcumida, cheias de capilares que envolviam milhões e milhões de alvéolos redondos acinzentados. Como aquelas três coisas euclidianamente espremidas num quarto de 2 metros e meio por 3.
Maria ficou daquele jeito por mais algumas horas.
Quando os dedos estavam roxos da quase gangrena, soltou o lençol do rosto. Estava marcada com uma risca vermelha que se estendia longitudinalmente de seu buço a suas orelhas. E o gigantesco trio pedregulhoso se refletia em suas diminutas pupilas de formiga.
Maria girou o torço sobre o colchão e seus pés tocaram o carpete encardido.
Levantou quieta e psicanalisticamente amortecida após as ininterruptas horas de horror. Engraçado como a mente cria pequenos truques para nos proteger.
Maria deu alguns passinhos em direção aos monstruosos planetóides orgulhosos e os abraçou.
Abraçou um abraço forte. Quase deslocou ambos os ombros tentanto abarcar aquelas três coisas de uma vez só.
Maria abraçou as misteriosas e enormes células cancerentas como se elas fossem sua própria mãe, que a abandonara apenas cinco anos após dar a luz.
Maria abraçou até seus braços doerem.
Maria abraçou aqueles grotescos e cinzentos desapontamentos de sua vida, como se seus braços não mais estivessem colados nas mangas da camisola.
