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Rádio-relógio imbecil, que mais parecia uma bomba-relógio, com seus números vermelhos enormes, que gritavam a plenos pulmões: FALTAM SÓ CINCO MINUTOS! APENAS CINCO! E AGORA QUATRO!
Se pudesse entender realmente alguma coisa, escolheria as juras. Porque jurar é estúpido. Jurar é comprometimento algum, porque é unilateral. Se você diz que é, então é, porque disse. Já as promessas, não. As promessas implicam um tipo pouco menos tacanha de acordo-comum, entre duas partes, e existem enquanto ambos os lados ainda não se esquecerem de cumprir ou cobrar tal arranjo combinado.
Relógio de pulso, tão tonto quanto, de ponteiros dourados que dançavam uma valsa torta para um lado só, girando e girando e girando, deixando tonta a tonta que olhava sem querer olhar para eles.
Se pudesse me esquecer realmente de alguma coisa, escolheria os aviões, porque voar me dá nervoso. São milhares de quilômetros, nuvens a dentro, num barulho que martela os ossos do crânio, num sobe-e-desce que embrulha as tripas, com privadas sem água e posições incômodas para dormir. De dentro ou de fora, aviões enervam, porque implicam distâncias, que telefone algum resolve.
Mais besta ainda era o dia, que cegava a vista com um bafo quente, para, de repente, sumir no quase-breu mais desesperador que esse mundo já viu, fazendo pupilas enlouquecerem, num fecha-e-abre intermitente, de um segundo para o outro.
Tranqueiras obsessivo-compulsivas. Ao longo de um mês e pouco, juntei um sem-número de pequenos objetos e penduricalhos, como peças coloridas de tangran que não se juntam e formam figura alguma. Embalagens, maços de cigarro, elástico de cabelo, moeda estrangeira, garrafa de suco (e de água), papéis rabiscados e um chiclete mascado. O último é mentira, mas se fosse verdade, não seria nem um pouco menos absurdo. Poderia montar um altar de um adorador só, mas se fosse verdade, não seria nem um pouco engraçado. Seria presa. Ou internada.
Despertador é outra coisa que é frouxa, porque sempre avisa o que, se realmente quiséssemos, nos lembraríamos sozinhos. O negócio apita, e assusta, e, ainda por cima, não nos deixa esquecer de acordar, ou ir para algum lugar, ou interromper qualquer coisa que, de bom grado, não interromperíamos gratuitamente.
Odiar é um negócio que dá trabalho, porque franzir a testa gasta muito mais músculos do que sorrir, mas, se eu disse o que disse, certamente não foi porque queria evitar rugas nas testas. Felicidade dá trabalho tanto quanto, mas odiaria mesmo é perder a oportunidade de te mostrar os dentes, numa boca em meia-lua para cima, tentando mostrar naturalmente o quanto, com você, nada no mundo faz sentido, enquanto todo o resto, dentro da minha cabeça, passa a fazer. Pois é.

2 Comments so far
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que ritmo bom de ler. e que leveza de espírito!
(foi o mais perto que cheguei de uma tradução para light hearted =S)
como meu avo, querido, ja dizia: eu pegaria um aviao, se nao fosse tao longe..entao tudo fica so aqui, na cabeca
(desculpe a falta de correcao, mas o teclado daqui ta ruim)
Comment by Nate, the tomato 08.26.09 @ 11:31 amLeave a comment
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