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Passava das quatro quando finalmente conseguiu fechar os olhos. Deitara na cama horas antes, no escuro que seqüestrava dos sentidos qualquer meandro físico do quarto. O silêncio ria um vazio profundo, fazendo da saudade um brandir no oco do peito, intermitente, que incomodava como a abstinência de um vício antigo
Queria acreditar que era uma nova vida que começara após o beijo, sem saber que aqueles dias não passariam de um punhado de contas preciosas, raras num punhado mundano de areia.
E era assim que colecionava os acontecimentos. Tentando escavar no estúpido do cotidiano alguns poucos momentos de lucidez, muito dificultosamente e com pouco sucesso.
As paredes abrigavam agora um sono inquieto, ríspido como um favor que se concede apenas por obrigação. Um descanso sem sonhos que, talvez, na claridade da nova manhã, pudesse ser esquecido e dar ao despertar das pálpebras algo maior e mais esperançoso - é para isso que nos servem os dias seguintes – pensou pouco antes de adormecer, com a certeza da inquietação e a sede saciada apenas pela renovação do alvorecer.
